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DO PURUS VEM UM CANTO
Aos Kulinas e Kaxis do Alto Purus
A mata silenciosa
Guarda os mistérios dos séculos.
Sepulta os mortos caídos.
É testemunha ocular
De quantos foram feridos
pela vil escravidão.
A mata guarda calada
os suores derramados, As noites de aflição.
Todo trabalho explorado,
Toda riqueza roubada, tudo isso foi gravado.
A mata guarda também
os soluços abafados
das crianças desoladas
que nem mais podem chorar.
Para aqueles que morreram
na pior desolação,
com “lombriga” ou “impaludismo”,
sarampo, gripe ou sezão,
o Purus vela de dia
e, de noite,
cada pau é lampião.
A mata testemunhou
todas as correrias que por aqui foram feitas.
Do Jordão ao Humaitá,
do Purus ao Juruá
nenhuma nação escapou.
“Batalhões de infantaria”,
armados até os dentes
semearam o terror,
plantaram destruição.
Kampa, Kaxi, Katuquina,
Kulina e Jamamadi
Poianawa e Jaminawa
Apurinã e Kaxarari,
grandes nações de outrora
covardemente massacradas,
hoje vivem espalhadas,
sem ter terra pra viver.
PURUS,
teus estirões tão bonitos,
se perdem no infinito,
como a fé no coração.
Vão tão longe que se perdem,
nas curvas desses barrancos
atapetados de verde,
que cantam a melodia
da tristeza e da amargura
O infinito traz um canto,
que sobe das profundezas:
é o canto da liberdade,
que explode na imensidão,
brilhando na claridade
da memória e da razão.
E superando a história,
sepultando o Barracão,
sinal dos tempos antigos,
marcas da escravidão.
Vem descendo tempo novo
tempo de grande fartura,
já passou a amarguraÉ hora de levantar!
Desce guerreiro forte,
como as águas do Purus,
que brotam de todo canto:
do céu, do norte e do sul.
Levantando tua flecha,
entoa teu grito de guerra!
Tua hora já chegou!
Cada peixe é um aliado,
o balseiro é teu irmão.
Os mistérios da floresta,
são vigias avançados,
terão força de canhão.
Desce Povo Kulina,
com teus caciques na frente:
RIMANA, MAÍ e DORRÔ
cada qual no seu lugar,
comandando a grande guerra,
vingando sangue de irmão,
que às vezes morrem à mingua,
sem dança, sem terra e sem pão.
Desce Povo Kaxi!
Levanta tua lança de guerra!
Cobra de teus inimigos,
o tempo do choro calado,
o medo da escuridão.
E o teu trabalho explorado...
Caxi e Kulina juntos
descerão pelo Purus
exigindo a liberdade
de viver como nação.
E o seu grito de guerra
soará como trovão.
Entrarão de casa em casa,
baterão de porta em porta
e dirão pro KARIÚ:
- Você sabe que meu Povo
vem dos mistérios do tempo,
da vida comunitária,
da dança do Mariri? - Você sabe que meu Povo
não conhecia dinheiro,
esse bicho tão nojento
que nega o alimento
do pobre se sustentar?
- Você sabe que meu Povo
não tem a hora marcada,
que não tem pressa, nem corre?
Esse bicho que atrapalha
a vida de muita gente
Homem que corre no tempo
e não vê o tempo passar;
que não fala com o tempo
não sabe com ele se amar,
fica doente e frustado
nervoso, doido e demente
É certo:
Uma minoria de tua gente
come bem, tem luxo e tem prestígio,
tem casa, tem dinheiro e tem escola.
Entretanto, abre bem teus olhos, teu coração e tua mente:
teus governantes se atolam na corrupção,
na demagogia, no roubo, na hipocrisia;
tuas cidades estão cheias de mendigos,
de prostitutas, de famintos,
de crianças tristes e abandonadas;
tuas fábricas cheias de operários
submetidos à exploração do trabalho;
teus quartéis com generais que trabalham
para semear a morte e a devastação;
tuas casas solitárias, cheios de ilusão!
Teus hospitais com homens loucos,
deprimidos, mutilados;
tuas ruas invadidas por uma multidão
que não sabe aonde vai,
caminha sem rumo e sem destino.
- Kariú! Kariú!
Ainda que sejas capaz de destruir,
pela força, todas as nações indígenas deste país,e semeares a morte de um extremo ao outro;
ainda que sejas capaz
(e sei que serás) de jogar no lixo toda a nossa cultura elaborada
há milênios, e destruires todos os nossos “mitos” pelo fogo,
para que nada possa sobreviver
e testemunhar a tua mentira;
ainda que procures divulgar,
ao som de trombetas tua vitória,
ainda assim, nós viveremos em tua memória como pesadelo.
E o espírito de nossos povos
não morrerá jamais.
Como a vida, ele brotará incessantemente e brilhará como as estrelas do céu.
Para te recordar a cada dia
que teu mundo está destinado à decadência e à derrota inexorável,
pois se sustenta na morte.
O espírito vivo de nossos povos
é o prenúncio de um mundo novo,
é a garantia do futuro
é a vitória da vida e do amor.*Poema composto navegando pelo rio Purus,
outubro de 1980