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História de luta, perseverança e vitória

Nilson Mourão, um dos fundadores do PT, fala das várias fases do partido que lutou para ser grande

Por Val Sales

       O deputado federal, Nilson Mourão, um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT), faz um breve histórico da caminhada da agremiação desde a sua fundação até os dias de hoje e ressalta a luta de muitos homens e mulheres que perderam a vida por acreditar no sonho da liberdade de pensamento e democracia plena.

       Ele conta que em 1980 existiam no Brasil duas forças políticas: o MDB e a Arena. O operário metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva, então presidente do Sindicato da categoria em São Bernardo do Campo, lançou a idéia de se criar no Brasil um partido dos trabalhadores, que seria uma alternativa para o povo diante da polarização existente na época entre os dois partidos.

       “Era plena ditadura militar tínhamos a liberdade democrática sufocada, o estado de direito ignorado e os militares governando de forma ditatorial. Houve grandes lutas sociais tanto no ABC paulista, que reunia o operariado moderno, quanto e na zona rural, onde se criava o clima de organização dos trabalhadores. Enquanto isso se criava no centro urbano um movimento contra a carestia, o movimento pelo custo de vida”, explicou.

       Mourão disse que quando Lula lançou a idéia da criação do PT ele entendeu claramente sua proposta, e junto com outros amigos decidiu formar um comitê no Acre. Lembrou que o PT no Acre foi organizado por dois setores: o movimento dos trabalhadores rurais, tendo a frente Chico Mendes e o então delegado da Contag João Maia e ele próprio com outras lideranças da igreja através das comunidades eclesiais de base. O PT no Acre é o resultado dessas duas forças populares.

       O parlamentar ressaltou que na mesma época, o Estado passava por transformações. Havia a mudança econômica com a borracha se extinguindo e a agricultura familiar sem perspectiva. O governo queria mudar a economia introduzindo a pecuária, situação agravada com o processo da migração em massa das famílias que eram expulsas do campo. Surgindo então os bairros João Eduardo, Triangulo Novo e outros conjuntos de áreas ociosas que foram ocupadas por essa população, a mesma que era acolhida pelo Bispo Dom Moacyr e as comunidades de base. Ela resistiu bravamente aos processos e permaneceu nas área ocupadas.

       “Foi nessa época que o partido foi legalizado e em 1982 disputou as primeiras eleições onde fui candidato a governador tendo como vice o poeta Elias Rosendo. Na disputa no senado estava o amigo Abrahim Farrat. A chapa de federais era encabeçada por João Maia e a estadual por Chico Mendes. Obtive 6% dos votos, número considerado grande na época devido a disputa envolver os dois partidos tradicionais do Acre: o Nabor Júnior pelo PMDB e Jorge Kalume pela Arena. Foi ai que eu fiquei convencido de que no Acre havia um espaço enorme para o crescimento do partido”.

       Hora de mudar - Devido a grande votação que obteve em sua primeira candidatura, Nilson Mourão observou que a população estava cansada dos velhos políticos, da política do “toma lá dá cá” e da ausência de um projeto claro de gestão. “Percebi isso com muita clareza, e me entusiasmei ainda mais para construir o PT. Muitos companheiros chegaram a dá suas próprias vidas como ocorreu com Chico Mendes, João Eduardo e Wilson Pinheiro, entre outros. Essa foi a primeira etapa do partido”, assegurou.

       A segunda etapa que levou o PT para outro patamar foi a eleição da Assembléia Nacional Constituinte, de onde surgiram novas lideranças. A mais expressiva teve a frente Marina Silva que veio do movimento estudantil, outra força que agora se agrega ao PT. Marina foi candidata a deputada federal e impressionou o povo, sendo a nova liderança emergente dos quadros da agremiação. “Essa foi a segunda etapa”, completou.

       A terceira etapa da vida do partido, de acordo com ele, foi a incorporação de Jorge Viana em 1990. Com ele veio outro setor para o partido, que foi a classe média de Rio Branco, trazendo ela a área técnica e outras ligadas aos setores públicos. Viana trouxe esse seguimento para dentro do PT e mostrou um dado novo da vida partidária que a preparação para a gestão pública. Pois o PT até então, tanto com Mourão ou com da Marina Silva era um partido de resistência, de contestação.

       Ele explicou que Jorge trouxe a visão de gestão. De que o PT deveria assumir de fato as prefeituras e o governo do Estado. Mostrar para o povo que as lideranças eram capazes de fazer o que diziam. A partir daí Jorge governador em 1990. Ele perdeu a eleição e se elegeu em seguida prefeito de Rio Branco. Na prefeitura conseguiu consolidar a terceira etapa partidária que foi a ocupação da gestão pública. Começando pela prefeitura, o partido, ampliou as bancadas de vereadores, de deputado estadual e federal, começando a ganhar sucessivas prefeituras.

       “O PT maduro de hoje, que viveu todas essas etapas, mostrou para o povo do Acre uma política nova, diferente e humanitária, compromissada com o social e que consegue gerir os recursos públicos com transparência. Mostrou honestidade e responsabilidade. No momento seguinte que também faz parte dessa etapa se incorporou Tião Viana em 1994”.

       “Não penso sozinho, cumpro missões”, diz Mourão

       “Sou da velha guarda do PT que cumpre missão. Nunca me candidatei a nome próprio e nunca me lancei a nenhuma candidatura por desejo de prestigio, de poder, ou de projeto pessoal. Sempre fui lançado para cumprir promoção partidária”, assegurou. Ele foi candidato a governador e perdeu, mas afirma que cumpri sua missão. Foi candidato a prefeito de Rio Branco em 1988, sabendo que ia perder. Perdeu a eleição mas cumpriu mais uma vez sua missão.

       “Os amigos do PT entenderam que a minha missão como candidato majoritário tinha sido encerrada, mas gostariam de me ver com mandato. Me deram então quatro mandatos: dois de deputado Estadual e dois como federal. Não me candidato a nada, as pessoas do partido é que se reúnem e decidem”, frisou. Os “companheiros decidiram em seguida lançar a candidatura de Mourão a deputado federal e ele assumiu o desafio. “Nessa última eleição eu entendi que era um momento delicado e complexo para disputas eleitorais. Eu estava disposto a assumir qualquer posto dentro do PT mas a lideranças insistiram para que eu mantivesse o meu nome. Vou cumprir meu mandato de deputado federal e, como diz o povo: o futuro a Deus pertence”.

(Extraído do jornal Página 20)